one post a day keeps the bore away ;-O

Sunday, October 30, 2005

integrados e desintegrados

sei não, mas começo a achar também que está meio sem sal, essa coisa dos grupos e tudo o mais.

Não vejo muitos posts, na verdade quase nenhum.
Provoco, mexo e remexo e... ninguém tem mesmo nada a dizer ?
Nem ao menos um: olha ai, Charlão, não interessa não, não estou a fim de discutir, cê tá ficando meio chato, sabe cuméquié ?

Ficamos na festa e nos fauítos e foi só?

;;;
Bem, parabéns para as meninas mais participantes, pelos seus aniversários e fotos e blogs, e um beijo ;-)

parabéns, Henfil !

e, por outro lado,

que magnífica e relação da Renina e do Minoru, ao menos conosco, que formávamos uma equipe em que as idéias e expressões individuals puderam se manifestar e se completar ?

Durante todo o semestre, a Luqui, a Crô e eu desenhamos, debatemos, formulamos estratégias visuais e espaciais, planejamos a intervenção e a executamos, não sem tensões, mas realmente trabalhando como uma equipe. Uma equipe onde essas particularidades individuais contavam muito.

E, novamente, não me lembro de dois professores cujos toques pessoais fossem tão importantes e agregadores e, ao mesmo tempo, tanto levassem em conta as pessoas !

equipes e pessoas

uns anos atrás, depois de particip[ar por quase um ano de uma equipe de projeto multidisciplinar na fau, primeiro ano de faculdade, dei um abort/retry/fail e recomecei tudo do zer.
Tínhamos que resolver, "integradamente", como se não fossem questões naturalmente integradas, planejamento urbano, arquitetura, paisagismo e desenho industrial para um centro comercial lá em Itaquera.

Revi a coisa toda, desenhei uns malditos blocos de concreto para ângulos em 45 graus, implantei o conjunto, estudei os gradings e escoamentos de água, as circulações e accessibilidades, enfim, a coisa toda.

Dia D, todos no salão caramelo, sentados em rodas no chão, Ermínia, Zanetinni, Félix e outros professores assistindo às apresentações das equipes, arguindo, comentando... parecia a escola ideal, o ponto de partida para um mundo de descobertas, o momento de catalização de anseios e esperanças de transformação.

E chega a minha vez, o idiota que não tinha mais equipe, trabalhou sozinho.

E o Zanetinni me vem com essa: Você fez um trabalho muito interessante, mas a política do grupo de professores privilegia o trabalho em equipe e, ademais, não há muito tempo e você não poderá apresentar seu trabalho.

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Sempre fui um pouco tímido, inseguro mesmo, e nem esbocei alguma reação. Sentia um misto de alívio por não ter que me expor em público - o que mais tarde viria a compensar com badernas variadas....
Senti também uma certa frustração, pois todo projeto precisa de interlocução, debate, feedback.

Dias mais tarde, contemplando mínhas inúmeras notas Dez, tive a estranha percepção de que seriam essas as minhas piores notas de toda a graduação.

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Acho também que, mais impressionante do que a quieta aquiescencia do grupo de professores quanto a ser tratar, talvez, de um bom trabalho mas, Real Politik acima de tudo, trabalhos individuais não valiam nada, foi o ensurdecedor silêncio de todos e de mim mesmo, sem resposta para aquela pequena amostra do sectarismo que predomina em grupos centrados em ideologias e não em princípios.

...
Hoje, participando esporadicamente de equipes de projeto, percebo com uma clareza luminosa que, em equipes, valem os indivíduos e suas capacidades e talentos individuais. São estes os que contribuem significativamente para o sucesso das equipes e dos projetos.

?
Como podemos formar massa crítica e talentos em escala nacional, sem dar atenção individual a cada um ?

Monday, October 24, 2005

menos, menos,

menos, gente, menos.
Menos leis, menos regras detalhistas e, em geral inúteis.

Pegue, por exemplo, o vocabulário incompreensível de nossos juristas.
Não há quem os entenda sem um tradutor a tiracolo.

Nossa paixão por papéis entupidos de leis, normas, regras, limites não tem fim.
Não conseguimos simplificar, reduzir ao mínimo essencial o conjunto de regras sociais.

É atávico, eu sei. Buscamos nos prevenir de todas as infinitas possibilidades, de todo e qualquer acaso que possa nos surpreender. Nossa constituição básica ultrapassa os códigos penais e civis mais simples de outros lugares. E nosso código penal e civil, então, é impenetrável, tão detalhista que, como um dos resultados previsíveis mas não previstos, apenas 1 ou 2 porcento dos assassinatos resulta em condenação.

Nossas leis trabalhistas cercam os trabalhadores de tantas proteções que, para grande parte deles, resulta mais simples trabalhar informalmente, nem sempre para alegria dos patrões. Estes, se aliviados da carga fiscal e tributária, sofrem com a informalidade, forçando-se a contornar as leis e, muitas vezes, colocando-se eles mesmos na informalidade.

Um dos reflexos imediatos de nosso complicadíssimo sistema judicial e legal é que, às voltas com algum processo, peregrinamos anos a fio, de instancia em instancia, em busca de um fim.

Vantagens para quem pode, essa situação resulta em dois caminhos para escapar à lei. Um, a própria morozidade dos processos, garante que alguns assuntos não sejam resolvidos antes de décadas. Outro, com o auxílio de um advogado competente, acha nas inúmeras contradições e exceções à lei o escape à mesma.

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O imenso desperdício de tempo, mobilização, dinheiro, que vimos neste encerrado plebiscito poderia ser canalizado para uma reforma política e legal simplificadora.

Menos é mais, não só em arquitetura.

Tuesday, October 18, 2005

casinha -

as mais recentes:






e algumas panorâmicas em quicktime:



guerra

acho que não dá prá negar, meio pelo meu jeito um pouco ou muito autoritário, esse misto de assertividade e birra permanente, que tem muitos milicos na família.

O primeiro de quem ouvi falar e de quem gosto muitíssimo, cel Eduardo, fazia cpor quando as pessoas de bom senso ou senso comum, não sei ao certo, decidiram que, com Getúlio ou sem, com Filinto Muller ou sem, tínhamos de participar da guerra. Foi um dos primeiros a se voluntariar.

Em Curitiba, meu pai era garoto, uns dezesseis, também queria ir. Não pode. Meu tio materno foi.

Voltou oficial, instrutor na Aman, acabou formando outros dois oficiais que, por acaso ou destino, são cunhados de meu pai.

Afinal, era Guerra, essa com maiúscula e gente grande, muitos levando a sério. Muitos mais ficaram. Militares de carreira que subitamente quebravam um ossinho - tradição herdada pelo nosso presidente - para furtarem-se ao dever. Vários tornaram-se arrimo de família, velha desculpa brazuca para não fazer o que deve ser feito.

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O arrimo de família é uma figura inexplorada do folclore nacional. Acho que nunca li nada a respeito, então dedico-lhes algumas linhas.
Quando servi exército, tarefa que não escolhi, mas da qual não fugi nem com uma coleção de pistolões de fazer inveja à turma do não, o que mais se via eram arrimos de família.
Carinhas tão magros que não arrimavam nem as próprias calças.
Outros, bem nascidos, mais que eu, ao menos, que se qualificariam melhor como fardos de família.
Havia arrimos pardos, brancos, mulatos e pretos. Havia arrimos gordos e magros, até um gay que arrimava a avó que o criara.

Os oficiais e graduados mostravam um respeito distante e reverente para com eles. Ora, arrimo de família, esse pilar da tradição e moralidade, é coisa séria, cidadão cumpridor e respeitável.

Livravam-se dos pernoites, dos turnos de guarda noturna.
Não eram punidos em seus constantes atrasos. Nós, meros alguéns, que não arrimávamos família ou irmãos, devíamos nos limitar à rotina.

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Bem, a guerra e nossa participação nela, como tudo o que fazemos nos trópicos, já foi devidamente 'encomendada' pelas parideiras da tramóia e desconfiança.
Historiadores cuidaram diligentemente de tornar nossa modesta participação em mero jogo de interesses americanos. Outros reduzem a modesta participação a uma limitada operação de limpeza em guarda de soldados capturados pelos americanos na Itália.

..:
Mais recentemente, nas fantásticas vitórias do Ayrton Senna, vislumbravam apenas marmeladas de bastidores, quando não o desmereciam por isso ou por aquilo. Bom mesmo seria o Piquet, malandro, meio salafrário, mesmo. Esse sim, 'honesto' na sua franqueza rude, nos representava à altura ...

Dai a citação de outro dia:

O que importa na vida é fracassar - Nelson Rodrigues

ainda de novo e mais uma vez

me ponho a pensar sobre o caráter pouco prático de tanta gente.

Meu avô, que andava de arma na cintura, chegou a cavalo pelo Mato Grosso, vindo da Bolívia.
Antes, após formar-se pela École Royale d'Engenieurs em Liege, passara uns dois anos na fazendola do rei da Bélgica, depois conhecida como Congo Belga e, um pouco depois, Zaire.

Presenciou um dos regimes mais tirânicos deste planeta, não daria para comparar nem com as escravidões.

Aqui, administrou fazendas, deu aulas na Luiz de Queirós, administrou fazendas escola e experimentais.

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Em seu primeiro ano em Ponta Grossa, fazia o trajeto da fazenda até Curibiba num Ford 1900 e bolinha, familha à bordo, malas daquelas de amarrar em burro, atadas à lataria da chimbica.
O carro despenca na serra paranaense, para num atoleiro muitos metros abaixo.
O velho desce - bem, tinha vinte e muitos, trinta e poucos.
Chega à estrada e lá vem um tropeiro de burros. Gente boa, gente simples do campo. Gente icocente. Gente da terra. Pede ajuda, tenho família, coisa e tal.
Num posso, seu moço. A tropa tá cansada, tenho muita viage pela frente.
Insiste o vô, por favor, tenha piedade - sabe-se lá com que sotaque !
Possu nãum. Ocê veje, inté Ponta Grossa já tá caindo a noite.

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O véi saca da arma, desarma o pacato tropeiro, ô pobre qui dó, destaca uns quatro burros e forma duas parelhas. Meia hora mais tarde, o fordeco tá na estrada, o véio dá um ou dois contos pro tropeiro, agradece a cortesia e vai-se embora.


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E tem quem ache que ele divia era di viaja a cavalo... deixa essa coisa di carru in casa, num sabi?
"Freedom of the press is limited to those who own one" - journalist A.J. Liebling

Depois da do Henfil, teve agora a do Ferreira Gullar.
Pessoalmente, acho o F Gullar um chato, ao menos comparado com o Henfil.
A metralhadora do Henfil - e a do saudoso Jaguar também, é municiada pela espantosa sucessão de besteiras que brota de todos os cantos. E daqui também, antes que outro engraçadinho note ;->

Acontece com todo mundo.
Alguém, não sei se baseado em informações corretas, lembrou que após os mencheviques terem desarmado grande parte dos campesinos, veio a vermelha de 1917 e durante três décadas instalou-se um dos mais crueis e totalitários regimes que já devastou uma nação. Para quem não lembra, os mencheviques eram um tipo de esquerdinha moderada, semi-cumpliciada com a aristocracia - não, não havia burguesia na Russia. Como dizia, um tipo de esquerdazinha assim, meio bacaninha, fazia o joguinho democrático, coisa e tal.
Lembra alguém ?

Olha, meus dois anos de esquerdismo passaram rapidamente.
Nunca mesmo fui um cara atencioso com o que, e ainda acho, baboseiras marxista.

Meu tipo ideal de Marx é o Groucho. ~Jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio.

Vinha dizendo que, nesses dois anos de esquerdismo, passei rapidamente de contestador de não sei bem o que - nem sabia na época -, a contestador de não importa o que.
Esse período concluiu-se com um estranho convite a assistir a uma reunião na História e Geografia, onde eu e alguns coleguinhas de então - alguns hoje na posição de corduchos burocratas partidários - fomos apresentados à estrutura chamada centralismo democrático da libelu.

Imaginei na época que isso me daria algumas crises agudas de risos, mas que nada.
Senti uma onda depressiva que nunca havia experimentado antes e resolvi, ali mesmo, parar de brincar e ir cuidar da vida

Só voltaria a outra paulada depressiva quando, anos depois, produzindo um documentário num encontro ecumênico em Petrópolis, ví-me isolado no meio de um bando de fanáticos.
No auge do encontro, um pastor propôs um brinde pela américa latina: estendeu sua mão com um copo d'água, salpicou um punhado de sal na água, mergulhou seu sinistro dedo indicador e o levou à boca, dizendo: provem do sabor salgado das lágrimas de sangue desta américa sofrida...
As pessoas ao redor, em círculo, passaram o copo de mão em mão, cada qual repetindo o gesto e murmurando algumas palavras que iam do ininteligível ao insano, do insano ao profano.

Eu, ao centro, com a camera rodando, girei umas duas voltas, a primeira lentamente, acompanhando algumas das passagens do copo de mão em mão... acelerei, completei a primeira volta até alcançar o copo que passava, girei mais uma vez, outra, mais uma...

Glauber quase acertou, mas para mim a coisa é, na verdade, uma idéia na mão e uma camera na cabeça, se é que me entendem.

::.:
Minha simpatia pelos argentinos nasceu nesta tarde em Petrópolis.
Apenas três pessoas ficaram à margem da roda, entre incrédulos ou irônicos. Eram três professores da Universidade de Buenos Aires, comunistas de ficha e carteirinha. Estavam ali como observadores de um encontro que pretendia, então, transformar a pregação religiosa e fazer frente ao avanço midiático pentecostal.

Uns anos mais tarde, inventaram o Padre Marcelo e o Shoptur.

:::

E tudo isso por causa desse plebicito fora de hora.
Insisto, usar armas é uma coisa, o direito de tê-las é absolutamente diferente.
E, em alguns casos, talvez usá-las, espero que não. Sério.




Monday, October 10, 2005

armas, ainda

O Dárkon me deu bons argumentos a favor da proibição, mas continuo a pensar que, por estranho que possa parecer um direito, ainda é um direito.
O direito ao aborto é combatido com os mesmos argumentos que têm sido usados e, apesar de a favor, acho que os argumentos contra são mais sérios. Argumenta-se contra o aborto que se trata de tirar uma vida, ficando em aberto a questão do 'quando se inicia a mesma'.
O mesmo pode-se dizer da eutanásia - praticada sutilmente em hospitais da cidade, em comum acordo com pacientes e familiares, quando a dor se torna excessiva e os tratamentos convertem-se em tortura.

Há ainda outras questões cujo peso moral e ético fica condicionado pelo bom senso, sempre um perigo.
Deve-se, ao capturar um sequestrador, usar de meios violentos para que ele revele onde está a vítima ?
A perspectiva humanista é clara: não se combate a violência com a violência. Foi justa então a segunda guerra mundial ? Alguma dúvida ? Foi correto bombardear Dresden até que só restassem cinzas, num esforço desesperado - e nada humano - para abreviar a guerra ?
E Hiroshima e Nagazaki ? Foi mesmo uma monstruozidade fulminar as duas cidades para interromper uma guerra cujos sintomas foram sentidos na barbárie praticada na Manchuria ?

O quanto estamos dispostos a relativizar nossos valores, em face de barbáries inomináveis ?

Nos habituamos a freqüentar essa zona cinzenta entre o certo e o errado. Reduzimos a um mínimo nossos instintos de sobrevivência, em prol de um convívio pacífico que nossos oponentes insistem em ignorar. Qual a medida, qual o ponto em que nossa civilidade deve dar lugar à nossa própria sobrevivência ? Quanto de culpa devemos carregar pelas desigualdades que nos cercam ?

Para isso, recomendo uma rápida visita a Sergeant York, do Howard Hawks, com o sempre impagável Gary Cooper.





Saturday, October 08, 2005

proibição para uns

Suddesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos.

Em face do estranho debate sufragista que nos assola nestes dias, gostaria de tomar posição nesta questão de posse de armas.

Armas não matam sozinhas. Facas, idem. Veneno ou bordoadas precisam ser cuidadosamente administrados para produzir efeitos letais.
Enforcamentos exigem cordas - ou cabos, quando à bordo, sempre conforme a situação ou a dureza do pescoço.
Empurrões providenciais ou golpes de caratê são silenciosos, não deixam marcas inequívocas e podem ser mais perigosos que um simples tiro.

Se você já tem uma arma, pode mantê-la. Se não tem, esqueça, não pode mais.
Como ninguém ainda veio a público e comentou a evidente falta de isonomia que a lei implicará ?

Mas gosto mesmo do argumento que transcrevo a seguir.

Os danos da proibição de armas
Denise Frossard*


O bom senso, sob o fogo cerrado da proposta de proibição
do comércio legal de armas, pode ser mais uma das
vítimas da ingenuidade ou violência branca da demagogia.

O que se pretende com a proibição? Reduzir a
criminalidade é a resposta, tão imediata quanto
impensada, que nos vem à cabeça. Mas é uma resposta
equivocada. A proibição do comércio legal de armas não
fará recuar nem um milímetro a ousadia do crime
(organizado), não baixará a taxa de delinqüência das
ruas nem mesmo trará o conforto de diminuir a sensação
de insegurança que, hoje, atinge em graus variados a
sociedade brasileira.

A proibição do comércio legal de armas, como o simples
aumento de penas, a mudança do fardamento da polícia,
tantas outras medidas (anunciadas ou já implementadas),
tem sobre a criminalidade o mesmo efeito de um arco-íris
no céu: uma ilusão bonita aos nossos olhos.

No caso da proibição do comércio de armas, a falsa
sensação produzirá, no entanto, um efeito danoso:
retirará do Estado a possibilidade de controle (ainda
que frágil, como agora) e dificultará ainda mais a
investigação de crimes praticados com esse recurso.

Proibida a comercialização, o Estado não terá mais
instrumentos para o controle da circulação de armas.
Como a sensação de insegurança persistirá, porque as
verdadeiras causas da criminalidade (corrupção e
impunidade) não são resolvidas em razão das deficiências
do Estado, o mercado inteiro de armas de fogo irá para a
clandestinidade.

As provas desse argumento são muitas. Uma delas está no
documento "Fiscalização de Armas de Fogo e Produtos
Correlatos", publicado pela imprensa, elaborado pelo
coronel de infantaria Diógenes Dantas Filho, que, em
conjunto com o Ministério Público Militar Federal,
articulou uma ação policial militar para apreensão de
armas clandestinas no Rio de Janeiro. O trabalho mapeia
as rotas utilizadas pelo tráfico de armas e confirma a
existência, em circulação, no Brasil, de 20 milhões de
armamentos sem registro, em contraposição a 2 milhões de
armas registradas.

É uma absurda ingenuidade de uns (e razães suspeitas de
outros) imaginar que, diante da proibição do comércio
legal, ninguém mais comprará ou deixará de portar armas.
O mercado não vai estancar simplesmente porque o Estado
proibiu a comercialização. Historicamente não tem sido
assim. Quem não se lembra da Lei Seca, nos EUA, ou da
reserva de mercado de informática, no Brasil? Nos dois
casos, e em muitos outros que a experiência de
proibições comerciais mundo afora construiu, cresceu o
mercado clandestino e o contrabando. Esse é o terreno
fértil para aumentar a corrupção.

A medida certa está no controle da fabricação e do porte
de armas de fogo, e não na proibição da comercialização.
Nesse ponto, é bom retirar do debate a idéia equivocada
de que os que são contra a mera proibição estão no pólo
oposto da argumentação, propondo "às armas, cidadãos".
Não é assim. Acredito na eficiência da regulamentação e
no controle rigoroso da fabricação, do porte e da
importação de armas. Acredito na responsabilização
direta e penal de todo aquele que, mesmo não portando
armas, estimule o porte ilegal. Venho defendendo
publicamente esses pontos de vista desde o começo dos
anos 90.

O caminho do controle foi tomado em fevereiro de 1997,
com a edição da lei 9.437, que estabeleceu condições
para o registro e o porte de armas de fogo e, mais
relevante, configurou como crime possuir, deter, portar,
fabricar, adquirir, vender, alugar, expor à venda ou
fornecer, receber, ter em depósito, transportar, ceder
(mesmo que gratuitamente), emprestar, remeter, empregar,
manter sob guarda e ocultar arma de fogo, de uso
permitido, sem a autorização e em desacordo com
determinação legal ou regulamentar.

Até 1997, o porte ilegal de armas era uma simples
contravenção penal. A partir de então, com a lei 9.437,
passou a ser crime, com pena de prisão. Recentemente, o
Senado melhorou ainda mais a lei, aprovando um projeto
que, entre outras medidas, torna o porte ilegal de armas
um crime inafiançável. A proposta do Senado será
submetida à Câmara, onde terá o meu apoio.

Apesar de não produzir resultados efetivos para o
esforóo de redução da criminalidade, que,
comprovadamente, tem causas mais graves, a proposta para
proibição do comércio legal de armas acabará sendo
apresentada à população como um milagroso remédio. E
nisto está o segundo, e talvez mais importante,
equívoco. Sendo aprovada a proposta e em nada resultando
no que concerne à necessidade de redução da
criminalidade, veremos aumentar a incredulidade da
população com as medidas que venham do Estado. Com isso,
continuaremos perdendo um importante aliado na luta
contra o crime: a confiança do cidadão no Estado.


*Juíza de Direito; aposentada, fundadora da
Transparência Brasil e Deputada Federal pelo RJ.



Agora, outras do Nelson Rodrigues para desanuviar...

O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota
Na vida, o importante é fracassar.
A Europa é uma burrice aparelhada de museus.